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Irremediavelmente perdida no passado está a época em que o ser humano precisava empreender longas e exaustivas viagens à procura de alimento. Não faltavam obstáculos a serem transpostos,, com situações de extremo flagelo e até mesmo perigo real de vida. O ser humano todavia, com sua inteligência, foi aos poucos invertendo esta situação e hoje basta nos ir até uma esquina próxima para obter qualquer tipo de alimento.

O estilo de vida atual coloca-nos dentro de uma utopia se comparado com o estilo de vida do ser humano de um passado remoto. Assim, vivemos (muitos de nós) sempre com aquela sensação de que falta algo a mais na vida. Damos pouco valor ao que temos ou, ao contrário, tememos imensamente perder o que possuímos a ponto de nos enclausurarmos numa esfera de proteção, extinguindo desta maneira o pouco de emoção que ainda resta.

À procura deste algo mais, realizamos no dia 20 de Abril de 1996 o 1º Crazy Trip, partindo de Mairiporã por um roteiro de 200 km. O pequeno grupo de participantes, três bikers e dois carros de apoio, enfrentaram uma noite fria, sem lua e um dia seguinte sonolento.

Nesta aventura pedalaram Henrique , César Mendonça e eu, Mazinho Bender. Os veículos de apoio eram um Jeep e um Gurgel, pilotados pelo Biu e Danilo, respectivamente.


Henrique      -       Cesar        -       Mazinho

Saímos exatamente às 20 horas do sábado, dia 20, rumo a Nazaré Paulista. Eu havia planejado um ritmo leve a fim de suportar bem toda a jornada. Meus dois companheiros eram mais fortes e assim, se eu resistisse, eles certamente estariam em melhor situação.

Embora a noite fria tenha retardado o aquecimento, o meu ritmo estava acima do planejado. Talvez pela expectativa e pela preparação psicológica dos dias anteriores! Como bem me conheço, deixei que a energia que fluia determinasse o ritmo, pois segurá-la ia certamente causar um desânimo. Com poucas e breves paradas, em 1:50 h(tempo sem paradas) chegamos em Nazaré, com uma média horária superior a 18 km/h. Este tipo de performance obtínhamos quando fazíamos este caminho ida e volta. Agora, que íamos rodar 200 km o ritmo parecia-me extremamente exagerado. A parada em Nazaré foi mais longa do que a planejada, devido a um problema na roda do Jeep.


Rodoviária de Nazaré Paulista    Um lanche reforçado nesta primeira parada

Depois de tudo resolvido, seguimos pela rodovia Dom Pedro I por uns 13 km, para então entrarmos numa estrada de terra que nos levaria às margens da represa do Rio Atibainha, onde um pouco antes eu e o Henrique arrepiamos numa descida alucinante, aproveitando toda a potência dos faróis Specialized 5.0. Tivemos que ficar um bom tempo esperando pelo César que possuía outro tipo de farol e não conseguia nos acompanhar.

 

Margeamos a represa, onde a estrada é plana, e só fomos parar numa ponte de concreto ao fim da represa. A nossa média horária, sem paradas, ainda estava acima dos 18 km/h e a média com paradas em 13 km/h. Se mantivéssemos este ritmo estaríamos de volta a Mairiporã antes do meio dia de Domingo, mas tinha muita coisa pela frente. O próximo trecho era uma pequena serra que nos separava da represa do Rio Cachoeira. Havíamos rodado 65 km e como nos alimentávamos bem, a cada parada, parecia que estávamos começando a pedalar.

Ao contrário do que eu esperava, o meu ritmo era mais forte do que o dos meus companheiros e comecei a achar que não chegaria ao final em boas condições. Com toda aquela energia subi a serra num ritmo muito forte, com o Biu bem atrás, iluminando o caminho com os faróis do seu Jeep. No topo da serra esperei pelo Henrique e, a seguir, despencamos. Nem mesmo o Jeep conseguiu nos acompanhar. Só fomos parar às margens da represa do Rio Cachoeira, onde esperamos pelo César que vinha sendo acompanhado pelo Danilo.

Margeamos aquela represa por mais de 20 km numa estrada sinuosa e com varias subidas e descidas leves, por volta das 4:20 h havíamos completado 88 km e nossa média sem parada era de 17,5 km/h. Henrique e eu paramos para esperar o César. Ele chegou acompanhado pelo dois carros de apoio com o Danilo e o Biu tremendo de frio. Fizemos uma alimentação reforçada e deitamo-nos para um breve cochilo. Uma hora depois o frio começou a incomodar e então resolvemos continuar.

O que nós fomos inventar

Começava a amanhecer quando chegamos no início do trecho mais montanhoso do roteiro. Desmontamos os faróis e nos preparamos para a travessia. Agora não dependíamos mais da iluminação dos carros, que nos pouparam muitas pilhas. Ainda me sentia muito forte e a noite sem dormir não estava incomodando, O som do Walkman deu-me forças extras para deixar os meus dois companheiros para trás só vindo a vê-los novamente no topo da serra. A cada explosão de energia aumentava a dúvida de que eu agüentaria os 200 km.

 

Nada se compara a um amanhecer assim

 
 
Logo depois de um pneu furado

 

 

Subindo a serra antes de Joanópolis

Chegando em Joanópolis

Chegamos em Joanópolis às oito horas, com média sem paradas de 16,2 km/h e a com paradas de 9,4 km/h. Essas médias passaram para 16,8 km/h e 9,8 km/h respectivamente, quando chegamos a Piracaia, já que este último trecho era asfaltado.

De Joanópolis até Piracaia por asfalto

 

 

Saímos de Piracaia por volta das 10:30 horas, com quase 150 km rodados. Foi a partir daí que a noite sem dormir começou a causar estragos e o excesso de toxinas no corpo, oriundas do constante esforço físico, provocava uma aversão à comida, que continuava a ser necessária. Mesmo assim, consegui manter o ritmo só parando quando cheguei ao trevo de Atibaia, na Rodovia Dom Pedro I. Henrique e eu ficamos deitados debaixo do pontilhão esperando pelo César e os carros de apoio que só chegaram meia hora depois, devido a um pneu furado na bike do César. Aqui resolvi mudar o roteiro original, que daria na verdade 215 km, optando por seguir a D. Pedro até depois de Perdões e cruzar a Serra do Oleoduto retornando a Mairiporã pela estrada de Nazaré, que passáramos na noite anterior.

O ritmo de todos agora era semelhante, mas a Serra do Oleoduto, com cascalhos obrigou-me a empurrar a bike em determinados trechos. Não pela falta de energia mas, sim, pela tração. O que realmente incomodava eram as assaduras nas virilhas e o sono atrasado que dava uma sensação de que os olhos estavam cheios de areia. Já no estradão de Nazaré, eu e o Henrique fizemos um ritmo mais forte que o de César, embalados principalmente pela ânsia de chegar. Na altura da Ponte Alta, faltando apenas 8 km, não consegui mais acompanhar o Henrique que logo sumiu do meu campo de visão. Começava eu a sentir os efeitos de uma hipoglicemia, pois há mais de uma hora não comia nada. Danilo me alcançou e foi me acompanhando com o Gurgel. Senti-me um pouco mais forte e dei mais uma puxada. Dois quilômetros à frente acabou todo o gás. Parei e peguei umas barra de Nutry e um preparado protéico no carro e disse para o Danilo ir na frente para Mairiporã. Alimentei-me e pude completar os últimos quilômetros numa boa.

Em Mairiporã encontrei o Henrique esperando e logo em seguida chegou o César, então comemoramos nossa aventura. Meu corpo estava dolorido mas a exaustão não era excessiva; apenas o sono atrasado me incomodava. Bastaram dois dias de descanso e a vontade de pedalar estava de volta.